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terça-feira, 10 de setembro de 2013

MATURIDADE



Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.

A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.

Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.

Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus

ÚLTIMA CANÇÃO




Deus,
eu faço parte do teu gado:
esse que confinas em sonho e paixão
e às vezes em terrível liberdade.
Sou, como todos, marcada neste flanco
pelo susto da beleza, pelo terror da perda
e pela funda chaga dessa arte
em que pretendo segurar o mundo.
No fundo,
Deus,
eu faço parte da manada
que corre para o impossível,
vasto povo desencontrado
a quem tanges, ignoras
ou contornas
com teu olhar absorto.
Deus,
eu faço parte do teu gado
estranhamente humano,
marcado para correr amar morrer
querendo colo, explicação, perdão
e permanência.

Lya Luft
In Secreta mirada e outros poemas

RECEITA DE CASA



Uma casa deve ter varandas
para sonhar,cantos para chorar,
quartos para os segredos
e a ambivalência.

Um amor precisa espaço de voar,
liberdade para querer ficar,
alegria, e algum desassossego
contra o tédio.

Não se esqueçam os danos a cobrir,
o medo de partir, e o dom de surpreender
- que é a sua essência.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus

SOMOS INOCENTES




A parte dura desta humana lida
é dizer sim na hora do não,
escolher mal entre silêncio e grito,
entre a noite e a explosão
do dia.

Ceder quando devíamos negar, dizer
não em lugar de afirmar, partir
quando era bom amar, fechar-se
em vez de resgatar
a vida.

Sermos tão incertos e indecisos,
perdendo o trem, a hora,
o agora: mas a gente
não sabia.

Lya Luft
In Para não dizer adeus.

PAIS E FILHOS



Aqui não cabe a poesia.Aqui
ficam à mostra as tripas
da nossa dor milenar.Aqui
fala-se de desencontro e impossibilidade,
onipotência e utopia.
Aqui se cantam as verdadeiras feridas
do amor.

Todos os filhos de todos os pais do mundo
estão nas trincheiras cotidianas:
mas temos os braços amarrados,
e não podemos apertá-los ao peito
como quando eram pequenos
e tínhamos a ilusão de que eram nossos.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus

O OLHO DO OUTRO...



” O olho do outro está grudado em mim e me sinto 
permanentemente avaliado, nem sempre aprovado: 
se eu não for como sugerem ou exigem meu grupo,
família, sociedade, se não atender às propagandas,
aos modelos e ideais sugeridos, serei considerado 
diferente. Como adolescentes queremos ser iguais à 
turma, como adultos queremos ser aceitos pela tribo:
a pressão social é um fato inegável.

Não controlada, ela nos anulará”.


Lya Luft, 
in Múltipla Escolha 

CANÇÃO EM ROTA DE VÔO





" Antes os dias eram apenas dias :
perdas e ganhos , tarefas cumpridas ,
solidão e algumas alegrias .
Agora , objetos familiares
ganham contornos de sonho ,
palavras são aves do paraíso ,
o cotidiano virou do avesso
e se tornou milagre .

Quero um novo amor , tão leve
como se dançasse numa praia uma menina ."

Lya Luft ,"in
Secreta Mirada

ALGUÉM INVADE A TERRA...




" Alguém invade  a  terra , a  torre ,  a ilha  onde  a  gente
pensava  estar  imune  ao  susto . Somos  atropelados  pelo
inesperado , com o qual não  sabemos  o  que  fazer .
São  dádivas , são bênçãos  de  deuses  que sorriem  das
nossas  trapalhadas , e sabem que é melhor  o sobressalto
de  estar  vivo  do que o entorpecimento das  emoções ."
Lya Luft 
in  Secreta  Mirada  e outros poemas

EXCERTO



" Não vejo melhor projeto de vida  do que escolher o lado
do sol , em vez de acompanhar a procissão de queixosos .
Querer  ser  o  cuidador ( sem vitimização )
e não o perseguidor , não humilhar o parceiro  ou ironizar
o filho  que não vai esquecer isso  nunca mais .
A vida é uma longa construção :  em geral a  enxergamos
como deterioração .
Não conseguimos apreciar o outro lado , que é acúmulo ,
experiência , serenidade , mínima sabedoria  , mais tempo ,
quem sabe  mais bondade .
Construção de emoções positivas , com porões  de tristezas
e um sótão  de decepções , mas  a sala e os quartos arejados,
com portas que podemos  abrir  para que se revele o que
ainda virá em seguida e vai se desdobrar . 
Isso é o que  a gente decide  ".
 
Lya Luft 
in , " Múltipla Escolha "
 


O CONVITE


  
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

- Lya Luft,
em "Perdas e Ganhos"